Antes de rotularmos com uma ou
mais patologias os nossos alunos, devemos entender que estes alunos sofrem
de uma “patologia comum à todos os seres humanos” SÃO CRIANÇAS, imaturas,
desatentas, agitadas, confusas, irritadas e irritantes, com tendência a
rebeldia, com dificuldade de adaptação ao novo processo de aprendizagem, sim
isso mesmo, há alguns dias elas aprendiam observando os pais e as pessoas de
sua convivência, agora, elas estão sentadas em uma cadeira, com uma pessoa “diferente”
falando, escrevendo, com um tom de voz diferente, com vocabulário diferente,
atitudes diferentes e nós ainda achamos que o problema é com "o aluno." NÃO É!
A CRIANÇA É TIRADA DE SUA FORMA DE APRENDIZAGEM NATURAL E TRANSPORTADA A UMA METODOLOGIA ALIENÍGENA E INADEQUADA, E NÓS, SEQUER LHE DAMOS INDICAÇÕES E TEMPO PARA REAPRENDER A APRENDER DE NOVO, E, PARA COMPLETAR, A CHAMAMOS DE DOENTE. (Múcio Morais, Os 100 maiores mitos da educação, seminário Educação e saber, e-book set, 2002)
Imagine você tendo que mudar completamente sua vida, sua alimentação, seus hábitos, seus amigos, sua convivência, sua rotina, seu ambiente, sua comunicação e ainda ser cobrado por não ter um desenvolvimento adequado em sua nova vida? Este é o seu aluno! (*Múcio Morais)
Acredito que mais da metade dos diagnósticos de patologias voltadas para a educação, estão completamente errados, nem TDA, TDAH, Autismo, etc etc. O diagnóstico correto deveria ser: CRIANÇA.
E... Queremos dar a elas um
rótulo com uma patologia mental grave, hoje temos mais autistas, disléxicos, TDAHs,
TDAs, discalculias, disgráficos, do que em toda história da humanidade, mas porquê?
Respondo, porque é o caminho mais fácil para explicarmos nossa incompetência na
educação básica, nossa incapacidade de atingir a todas as inteligências, nossa
preguiça em avançar nos processos de ensino, alguns professores tem cadernos
com o mesmo plano de aula por mais de 10 anos, mas nesses anos o mundo mudou
demais, mas a aula é a mesma.
Mas, existem as patologias? Sim existem, mas podem ser tratadas, controladas e representarem muito menos transtornos na educação do que estamos assistindo no momento.
Outra constatação grave é a de
que não podemos entender as diferenças entre as pessoas, somos diferentes em
habilidades, processos de aprendizagem, visão de mundo, percepção de si mesmo e
do outro, reações, educação emocional, padrões de convivência e por ai vai.
Não formaremos um batalhão de
soldadinhos de chumbo, com a mesma composição, uniformizados, iguaizinhos, estamos
formando indivíduos, pessoas diferentes e que crescerão diferentes. A diferença
é uma maneira de excluir se esta vier de cima pra baixo. Do melhor para o pior.
Nossa avaliação precisa se adaptar às pessoas e não ao contrário. Alguém pode
ser muito melhor hoje do que era ontem com base em si mesmo, mas pode ser pior
hoje se comparado com a coletividade de ontem. Cada criança é diferente e será
um ser humano diferente, chega de neuras na educação. Faça o seu trabalho bem
feito e estes tabus caem por terra.
É preciso lidar com as diferenças
de “pontos fracos” dos alunos com uma visão holística, de forma panorâmica, ou
seja, como um todo e não de maneira desmembrada. Quando enxergamos assim, a
criança passa a ser parte e não uma aberração.
Esta visão precisa chegar também em casa, pais que são estimulados a verem seus filhos como "especiais" acabam por criar um mundo de bob, viajando por cenários sem sentido e fantasiosos, isso fragiliza e vitimiza a criança, enfraquecendo os processos de auto iniciativa, oferecendo uma zona de conforto que não é saudável. Também com esta visão interferimos no ambiente familiar e passamos a expor a criança aos mais diversos comentários e preconceitos dentro do círculo parental, amigos, vizinhos... Tudo precisa de equilíbrio. inclusive a relação legítima com uma patologia.
Professores precisam entender que para ensinar é preciso entrar no
mundo da criança, ser professor é ser um viajante e conhecer novos mundo,
novas civilizações, novos modelos de pensar, assimilando e aprendendo, o
professor de verdade é um explorador, não um repetidor de fatos, um audacioso
viajanteque não teme o desconhecido,
que pode chegar e conhecer o mundo de seu aluno profundamente, onde ninguém
jamais esteve.
Boa viagem!
Múcio Morais
PALESTRA E WORKSHOP VOLTADAS PARA DIAGNÓSTICOS DE PATOLOGIAS EDUCACIONAIS; TEMAS ESPECÍFICOS, AVALIAÇÕES E OUTROS.
PALESTRA/WORKSHOP - PATOLOGIA CRIANÇA; 7 CAMINHOS PARA LIDAR COM ALUNOS ESPECIAIS; COMO MINIMIZAR PATOLOGIAS DIAGNOSTICADAS? ENSINANDO PARA AUTISTAS; GESTÃO DE APRENDIZAGEM PARA ALUNOS ESPECIAIS; O PROFESSOR ESPECIAL; PROFESSOR, O CRIADOR DE METODOLOGIAS;
O processo precisa considerar o
percurso trilhado pelos pequenos, sem julgamentos, notas ou rótulos e fornecer
elementos para a equipe repensar as práticas
Educação Infantil: o olhar sobre
as crianças
As Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) determinam, desde 2009, que as
instituições que atuam nessa etapa de ensino criem procedimentos para a
avaliação do desenvolvimento das crianças. Esse processo não deve ter como
objetivo a seleção, a promoção ou a classificação dos pequenos e precisa
considerar "a observação crítica e criativa das atividades, das
brincadeiras e interações das crianças no cotidiano" e empregar múltiplos
registros. Tais apontamentos, no entanto, ainda geram dúvidas e interpretações
equivocadas. com exigências psicopedagógicas inadequadas. (1º Seminário Nacional de Avaliação
da Educação Infantil, MEC – Ministério da Edução e Cultura, SP)
A avaliação nessa etapa,
geralmente, é dominada pelo uso de instrumentos normativos, direcionados para a
identificação das deficiências das crianças e que não atentam para os
componentes social, cultural e de interação inerentes ao processo de ensino e
de aprendizagem. "Há um desafio importante e atual, o abandono de práticas
descontextualizadas que ignoram a individualidade das crianças e a procura de
abordagens que captem a unicidade e a autenticidade de cada uma delas,
considerando o desenvolvimento dentro dos contextos e das rotinas".
Em 2012, o MEC publicou o documento Educação Infantil:
Subsídios para Construção de uma Sistemática de Avaliação, em que aponta que
hoje se sabe que a meninada não se desenvolve toda da mesma maneira e que ela
sofre a influência da realidade cultural e social em que está inserida. A
utilização de instrumentos pontuais leva à rotulação e ao estigma dos pequenos,
quando o foco precisa estar em como eles agem durante as práticas e interações
possibilitadas na escola.
Os riscos de avaliar mal não
param por aí. Ao dizer que uma criança não se comporta como deveria, pode-se
deixar de ver os avanços que ela já alcançou. Ao pensar, por exemplo, que ela
está adquirindo a habilidade de se equilibrar apenas se for bem em um teste
realizado com cordas, pode-se ignorar o fato de que ela consegue subir e descer
do trepa-trepa sem nenhum problema. Além disso, instrumentos classificatórios
favorecem que o professor direcione seus esforços, buscando que a turma seja
treinada para obter sucesso em uma ação específica, o que é um grave problema.
"A criança não pode se
sentir integrada a uma escola que lhe proporciona uma situação constante de
prova, de teste, onde a tensão se mantém e onde ela e sua família são
prejulgadas e responsabilizadas pelo fracasso", (Jussara Hoffmann, mestre
em avaliação educacional UFRJ, Avaliação e Educação Infantil - Um Olhar
Sensível e Reflexivo sobre a Criança (152 págs., Ed. Mediação).
Por tudo isso, é fundamental a
construção de um modelo que leve em conta o processo educacional, baseado em
informações recolhidas ao longo do tempo por meio de situações significativas
no contexto das atividades realizadas pelos meninos e pelas meninas e que
atenda ao que eles conhecem e são capazes, sem nunca serem penalizados pelo que
ainda não sabem.
Esses pontos pressupõem um
planejamento que guie todos no sentido da concepção de avaliação que se quer
implementar, a formação em serviço dos professores e a elaboração de
instrumentos que consigam registrar o percurso realizado e dividir os avanços
com as famílias.
O ciclo da avaliação na Educação
Infantil
Concepção e planejamento
Formação
Instrumentos
Socialização das informações
Concepção e replanejamento
As diretrizes revelam a análise que
se deseja fazer
O projeto político-pedagógico
(PPP) da instituição de Educação Infantil deve ser pensado de maneira a
promover situações que desafiem o que cada menina ou menino já sabe,
possibilitar que eles se apropriem de diferentes linguagens e saberes,
assegurar que manifestem seus interesses, desejos e curiosidades e valorizar as
produções individuais e coletivas. Para se chegar a isso, é necessário que o
processo educativo contemple a avaliação e, por meio dela, a constante reflexão
sobre os resultados alcançados. "A ação pedagógica só vai favorecer o
desenvolvimento dos pequenos se, primeiro, for planejada; segundo, colocada em
prática; terceiro, avaliada; e, quarto, replanejada", Movimento Inter
fóruns de Educação Infantil do Brasil (Mieib).
"Para manter o foco no
desenvolvimento da criança, precisamos respeitar a individualidade dela e a
escutar, tanto ao buscar sua fala como, principalmente, observando atentamente
suas expressões, manifestações e aprendizagens".
É possível conversar com os
pequenos, perguntar sobre determinadas atividades, saber o que eles mais
gostaram e pedir a ajuda deles no momento de organizar o portfólio de
produções. "Experiências nesse sentido já nos mostraram que eles conseguem
fazer uma apreciação crítica sobre as próprias produções. Eles falam coisas
como ‘antes eu não sabia escrever meu nome’ ou ‘olha como eu desenho bem melhor
hoje’", diz. Além de permitir que eles expressem algumas opiniões sobre
suas experiências, essa situação dá pistas sobre como eles veem suas
aprendizagens.
As premissas que integram o PPP
também devem refletir na definição dos procedimentos que norteiam a avaliação.
Esse cuidado está presente nos planos, anual e semestrais, e no planejamento
dos professores. "Com esses instrumentos, conseguimos refletir se as
práticas e as estratégias estão adequadas aos objetivos que queremos
alcançar".
Uma vez que a instituição entende
que a avaliação faz parte do processo educativo, cabe ao coordenador fazer com
que as diretrizes sejam apropriadas pelos docentes. Esse é o primeiro ponto que
um plano de formação sobre o tema tem de contemplar. Com essa sensibilização
realizada, deve-se iniciar a reflexão sobre o que se pretende observar e que
critérios levar em conta. Boa parte da discussão se baseia no currículo da
instituição.
A elaboração de indicadores para
os diferentes eixos da Educação Infantil orientam as observações e os registros
e são retomados, frequentemente, a fim de que sejam analisados e aprimorados, discutindo
diversos tipos de documentação, como o relatório de adaptação, o portfólio de
imagens e os pareceres.
Outro ponto fundamental para
análise é como fazer o acompanhamento das crianças. Uma das possibilidades é o
coordenador orientar a equipe docente a fazer uma programação para cobrir
diferentes aspectos ao longo de um determinado período. Cabe incluir uma
atividade com materiais, outra coletiva, no parque, uma roda de leitura e um
passeio. Essa sistemática permite avaliar as áreas mais bem-sucedidas e o que
ainda requer ajustes.
A reflexão constante também
implica não aceitar o trabalho como encerrado. Considerar questões como
"Que problemas a turma apresentou com as estratégias que eu sugeri?"
e "O que aprendi com essa experiência?" ajudam na problematização.
Nesse momento, o gestor pode trazer um olhar de fora da situação, fazendo
perguntas que levem a uma análise crítica.
Como se vê, a formação não
termina quando a ação é iniciada. Pelo contrário, ela fornece elementos para
que o gestor atue no sentido de aperfeiçoar as práticas e o próprio processo
avaliativo. "Quando os registros são compartilhados com a coordenação, ela
pode identificar elementos da atuação docente que precisam de intervenções e
que se transformam em novos objetos de estudo". Por essa razão, é preciso ler
todos os relatórios individuais e coletivos produzidos pelos docentes e
escrever devolutivas sobre eles. No final de um semestre, por exemplo, pode se
perceber que os professores não estão se aprofundando no eixo de Música. Por
isso, o próximo período letivo já começou com formações sobre o tema.
Instrumentos
Muito mais que meros formulários
"A observação e o registro
permitem a avaliação contínua e processual. Por meio deles, docentes e
coordenadores pedagógicos acompanham o que está sendo construído no dia a dia
das turmas", aponta o livro O Trabalho do Professor na Educação Infantil
(420 págs., Ed. Biruta, Zilma Ramos de Oliveira). Os dois instrumentos são os
mais defendidos por estudiosos da área porque respeitam a individualidade dos
pequenos, consideram o contexto em que eles estão inseridos e são realizados
pelos adultos que mediam as ações. Com a observação, o educador tem a
oportunidade de conhecer cada um, as reações, os hábitos alimentares, as
brincadeiras preferidas e vários outros detalhes.
O livro organizado por (Zilma Oliveira, Ed. Biruta) aponta três características fundamentais na observação. A primeira, o foco,
pressupõe que se tenha um objeto de análise, que pode ser a criança, o grupo,
uma situação ou uma atividade. A segunda, o objetivo, indica que é importante
que ela aconteça para que se conheça melhor algum aspecto da aprendizagem. E a
terceira, a continuidade, se explica pelo fato de que o desenvolvimento
infantil não se esgota ou não está limitado a um episódio pontual. São elas que
asseguram que esse instrumento não vai ser utilizado apenas para que o
professor preencha formulários com sim e não, e que gere subsídios para
repensar a ação educativa.
A observação pode ser realizada
de duas maneiras. Em uma delas, o olhar fica livre para notar o que está
acontecendo naquele momento e a outra é mediada por uma pauta que, portanto,
pressupõe uma antecipação e um planejamento.
Obviamente, a memória não é
suficiente para guardar tantas informações. Por isso, temos de lançar mão dos
registros. Eles são fundamentais para que o educador anote tudo o que lhe chama
a atenção e o que os pequenos revelam. É importante que o coordenador instrua
os docentes a anotar, de preferência, simultaneamente à observação, o nome da
criança, a idade e os locais e os horários em que determinado fato aconteceu.
Só assim, ao final de um período, ele conseguirá dar sentido para anotações
diárias que podem, a princípio, lhe parecer desarticuladas. A organização dos
registros, no entanto, pode ser feita de diversas maneiras. Um caderno em que
cada folha seja reservada a uma criança uma boa opção.
"Eles representam a análise
e a reconstituição da situação vivida pelo educador na interação com as
crianças. Ao registrar o que observa, ele reflete sobre a evolução do seu
próprio trabalho e sobre suas posturas pedagógicas", afirma Jussara
Hoffmann, em seu livro. Além disso, segundo ela, um registro bem feito
possibilita que se retome essas anotações e veja se as intervenções elaboradas
com base nele surtiram algum efeito.
O coordenador também precisa
lembrar o grupo dos diferentes tipos de registro. Por exemplo, se o ano começa
e o professor conhece pouco a turma, um bom instrumento para a análise é a
ficha de adaptação, na qual se pode registrar preferências e reações que cada
um manifesta no primeiro contato com uma situação nova.
A documentação não é composta
somente de material escrito. Fotos, vídeos, áudios e as produções nas múltiplas
linguagens devem ser guardados e organizados.
O vídeo, por sua vez, traz a ação
com todas as variáveis que interferiram no desenvolvimento da atividade e
permite que aquele momento seja visto várias vezes, captando percepções sobre
os pequenos que não foram possíveis na observação direta. E a foto ajuda a
refletir sobre a organização do espaço e sobre detalhes, como os gestos durante
uma pintura ou desenho. Lembre que quando as imagens forem selecionadas para
compor o relatório final, elas precisam estar acompanhadas da data em que a
situação foi registrada e de um comentário (se não há o que falar, reflita se
ela é realmente necessária).
Para Marlene, do Mieib, esse
processo precisa ter polifonia, ou seja, múltiplas vozes. "O olhar sobre a
meninada é enriquecido quando, além do professor, outros adultos que acompanham
suas aprendizagens são ouvidos", diz. Na Creche-Escola Paulo Rosas, em
Recife, que atende crianças até 4 anos, duas vezes por semestre, os docentes e
os auxiliares se reúnem para discutir o desenvolvimento de cada menino e
menina. Em muitos desses encontros, participam outros funcionários, como a
cozinheira que é envolvida na conversa sobre alimentação e a equipe de limpeza
que contribui na discussão sobre o desfralde. "A troca de informações, que
resulta em uma avaliação coletiva, amplia a reflexão sobre nossas ações",
afirma a coordenadora pedagógica Marcela de Cássia Melo Figueiredo.
Socialização das informações
Cuidado! Esse documento é público
Toda a documentação reunida
embasa a elaboração de relatórios que mostram o desenvolvimento dos pequenos, a
interação deles com as várias linguagens e a convivência com os colegas e os
educadores. "Ela representa a memória resinificada da história vivida
pela criança na instituição e favorece a continuidade do processo
avaliativo", diz Jussara Hoffmann.
Por meio do relato construído
pelo professor com a orientação do coordenador, o percurso de aprendizagem da
meninada pode e deve ser compartilhado com os demais educadores e com as
famílias. Isso é fundamental, por exemplo, para garantir que um professor, ao
assumir uma turma, conheça o que se passou com cada um dos meninos e das
meninas no ano anterior. Por isso, vale arquivá-lo na escola durante todo o
tempo de permanência da criança.
Quando o docente é informado
sobre o grupo com o qual vai trabalhar, ele deve receber, junto com as fichas
de matrícula, o relatório individual do ano anterior. "Eles ficam com o
documento ao longo de todo o ano para que possam consultar sempre que
necessário", diz Elisângela.
Os pais também devem ter acesso
ao relatório. Ali, eles conseguem visualizar o caminho trilhado pelo filho e os
avanços que ele vem obtendo. Além disso, esse material colabora para prestar
contas sobre o que foi realizado. Aqui o professor atende individualmente às
famílias e, com base no relato, fala sobre os desafios propostos, os avanços e
as habilidades que foram conquistadas.
Este trabalho de pesquisa procura trazer uma reflexão sobre o papel social da escola e a importância de se ter uma equipe pedagógica consciente e envolvida com esta questão, diagnosticando as dificuldades existentes no processo educacional e buscando modificá-las socialmente, tendo como instrumento mediador desta mudança a educação. Para tanto, se recorreu à pesquisa de campo e a diversos teóricos da educação, considerando o pensamento de cada um deles naquilo que venha respaldar o tema proposto nesta investigação, assim como os pontos sugeridos para suscitar inquietação e discussões posteriores. Com base na pesquisa realizada, percebe-se que realmente é possível canalizar o poder da educação como objeto de mudança, quebra de paradigmas e transformação social.
Palavras-chave: Socialização. Influência social. Papel social.
1. INTRODUÇÃO
A construção deste trabalho de pesquisa, cujo tema é “O papel social da escola”, surgiu a partir da necessidade de questionar os profissionais da educação quanto à responsabilidade social que a escola tem como entidade formal, e levá-la a refletir sobre a importância do papel social que a mesma exerce como agente influenciadora na sociedade a que pertence. Este artigo foi desenvolvido e fundamentado a partir de diversas pesquisas, utilizando como fonte de recursos livros, revistas, e pesquisa de campo no setor de educação formal no município de Itaparica, visando reunir material de suporte técnico, tomando como base diversos teóricos da educação e entrevistas com profissionais deste mesmo setor, objetivando dar respaldo científico a este trabalho de pesquisa. Pretende-se através da abordagem do tema sugerido, levar a comunidade escolar a refletir sobre a importância do papel social que ela exerce sobre a sociedade local em que está inserida, e canalizar este recurso na formação do caráter social da sua clientela. Para tanto, deve-se abrir discussões nas reuniões de professores e nas Atividades Complementares acerca do papel social da escola, levando estes profissionais da educação a refletirem sobre qual a sua participação dentro do contexto que esta temática sugere com relação à realidade da vida escolar. Este artigo também pretende viabilizar discussões por parte de equipes pedagógicas sobre o papel social da escola, onde a mesma esteja realmente voltada para uma visão de socialização dos grupos que de alguma forma se relacionam com ela. Inclusive, no que se refere ao plano de curso, destacar a importância de inserir na elaboração do mesmo, uma proposta socializadora e de estratégias que venham envolver os pais dos alunos e a sociedade local nas reuniões, eventos e encontros escolares, onde a escola deverá expor seus projetos e propostas pedagógicas, a fim de conscientizá-los da importância de estarem comprometidos com este planejamento e assim estabelecer parcerias, buscando contribuições participativas que venham somar positivamente com a execução das atividades propostas pela escola durante todo o ano letivo.
A problemática central deste artigo surgiu de um questionamento essencial para sua produção: “Até que ponto a escola tem cumprido seu papel social?”. A partir da hipótese de que entre os diversos problemas enfrentados na realidade do cotidiano escolar, principalmente das escolas públicas, os que mais refletem no insucesso da educação para a vida de uma grande massa de alunos, são os de ordem social. Ou seja, a falta de uma equipe de educação que tenha uma atuação com consciência social no desenvolvimento do seu planejamento educacional; a falta de comprometimento por parte dos pais, referente à vida escolar dos seus filhos, assim como a falta de envolvimento da sociedade local com algumas propostas pedagógicas da escola; e, no que se refere ao discente, a falta de perspectiva de sucesso social para investir mais no seu futuro, isto é, estudar com paixão por si mesmo, pensando em conquistar seus sonhos, galgar os lugares mais privilegiados e fazer parte da construção de uma sociedade crítica e mais justa. Tudo isso se deve principalmente ao fato de que na maioria das vezes a escola não se apercebe do poder de influência que exerce como entidade formadora do caráter social, considerando que se hoje a estatística apresenta um alto índice de marginalidade é principalmente por falta de assistência por parte dos órgãos responsáveis pela educação, e se existem hospitais abarrotados de doentes é em parte também por falta de orientação educacional, ou seja, a educação é um eixo onde tudo gira em torno de sua doutrina, e percebe-se que ela é um dos remédios importantes para a maioria dos problemas de ordem social. Por isso mesmo, olhando deste ponto de vista, é que depende bastante da escola destacar-se como um diferencial e ser referência no ato de ensinar, formar indivíduos dentro desta realidade indouta, traçando estratégias pedagógicas com o objetivo de envolver a equipe escolar em um mesmo propósito, trabalhando sistematicamente em sintonia com uma consciência mais voltada para a socialização dos pais de alunos e da sociedade local com o grupo escolar, tornando-os seus parceiros para jogar definitivamente em seu time, tendo participação direta ou indireta nos trabalhos pedagógicos propostos nos planos de cursos e no PPP (Projeto Político Pedagógico). Sendo assim, tendo a sociedade local como coadjuvante na construção educacional e na formação social dos indivíduos sob a responsabilidade e regência da escola, espera-se que os alunos resultantes deste processo venham desenhar a sociedade de amanhã, em condições mais justas, consciente e socialmente mais equilibrada.
A escola precisa repensar sobre que tipo de sociedade ela pretende construir, haja vista que ela tem participação preponderante na formação do caráter social dos indivíduos, e, portanto, tem em suas mãos o poder de intervenção pelos mecanismos da educação, consolidar as relações sociais de acordo com os padrões exigidos pela sociedade. Por isso mesmo, este trabalho de pesquisa tem suma importância no momento em que visa criar um link de discussões e reflexões na comunidade escolar, e, principalmente no corpo docente e direção, a partir do tema sugerido, como uma possibilidade importante de oferecer aos profissionais da educação um despertamento quanto à sua função social no processo educacional e acerca da necessidade de uma abordagem mais incisiva, no sentido de incorporar sua missão social com mais compromisso e dedicação. Por isso mesmo, este artigo pretende abrir um leque de possibilidades para enfocar a relevância deste tema que está voltado inteiramente para a importância da escola desenvolver em sua vivência cotidiana o exercício e cumprimento do seu papel social, não só como agente formadora, mas como entidade mantenedora de um intercâmbio social com a comunidade em que está inserida, com a finalidade de somar aos seus recursos e possibilidades pedagógicas suportes e parcerias que venham facilitar a viabilização do ensino-aprendizagem, bem como a formação e a preparação dos indivíduos para serem inseridos na sociedade, sobretudo levando-os ao sucesso profissional, considerando que para se alcançar esse resultado depende também de que os profissionais da educação venham assumir uma postura pedagógica sensível, responsável, política, diferenciada, levando em consideração que a escola tem um papel determinante na construção social dos indivíduos.
2. ESCOLA E SOCIEDADE: UM INTERCÂMBIO INDISPENSÁVEL
Segundo Paulo Freire (2001), “o Brasil foi “inventado” de cabeça para baixo, autoritariamente. Precisamos reinventá-lo em outros termos”. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases, “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: Vinculação entre educação escolar, o trabalho e as práticas sociais”. (LDB, Art. 3º, XI). A escola tem como papel social a tarefa de, principalmente, encaminhar ações por meio de processos educativos que venham despertar o compromisso social dos indivíduos, das entidades e dos grupos sociais, objetivando fazer uma só aliança, capaz de promover mudanças e transformações no cumprimento do dever educacional, da preparação e formação de alunos que sejam cidadãos portadores de uma nova visão de mundo reinventado, através da criticidade e da participação. Para Gadotti (2001), a pedagogia é revolucionária, significa que ela não esconde as relações existentes entre educação e sociedade, entre educação e poder, ou seja, ela não esconde o papel ideológico, político, da educação.
É utopia que todos os problemas sociais se resolvem pela educação, mas é certo que ela representa uma condição indispensável para resolvê-los. A educação é um fato social que, a princípio, tem por função socializar, integrar gerações imaturas na sociedade e desenvolver a sociedade em geral e os indivíduos em particular. Tem, pois, as funções de ajustamento e desenvolvimento social. Mas, além dessas funções, a educação, especialmente a sistemática, exerce (entre outras), as seguintes funções: a) Controle social (influencia o comportamento humano); b) Estabilidade social (torna o indivíduo eficiente). (OLIVEIRA, 1993, p.16).
Na história da educação, percebe-se que a cultura do ser humano é caracterizada por viver essencialmente em sociedade. Segundo Aranha (2001), na antiguidade, o sistema educacional nas tribos era difusa, ou seja, todos participavam da formação do individuo no grupo social. E para enfatizar este pensamento, Pedro Demo (1995) afirmou que hoje parece quase uma banalidade afirmar que as pessoas se moldam socialmente. “O ambiente social, o meio familiar, o convívio com certos grupos, a pertença de classe, tudo isso influi pesadamente na formação do indivíduo e da própria sociedade” (DEMO, 1995). E ainda Pedro Demo segue ressaltando que o sistema social é composto da interação dos indivíduos, que aparecem tanto como atores, quanto como objeto de orientação dos outros.
Presume-se que o papel social da escola é educar. Esta é sua ideologia, e seu propósito público. As escolas atravessaram um tempo sem serem contestadas, pelo menos até recentemente, em parte porque a educação tem significados diferentes para diversas pessoas. Escolas diversas procedem, é evidente, de modo diverso, mas, cada vez mais, em todos os países, em qualquer nível, e seja qual for a espécie, as escolhas acumulam quatro atividades sociais distintas: a tutela dos alunos, a seleção social, a doutrinação e a educação. – A verdadeira educação é uma força social vital. (REIMER, 1979, p.33).
É muito comum por parte de quem não tem iniciativa ou competência para trabalhar, justificar de alguma forma seu insucesso, e normalmente é transferindo a culpa que esses indivíduos se sentem aliviados; ao se depararem com uma tese ou teoria capaz de minimizar seus problemas, escondem-se atrás do chavão de que “muita teoria não passa de palavras fora da realidade”. Assim, fica mais fácil justificar sua inaptidão profissional. De dezesseis escolas públicas do município de Itaparica que foram pesquisadas, segundo a afirmação dos gestores entrevistados, apenas quatro detém algum plano de ação para atrair as famílias como parceiras no processo educacional dos filhos. Isso corresponde a 25% do número das escolas que realmente desenvolvem seu papel social. As demais se contentam em apontar algum culpado.
Gadotti (2001) acredita que no plano social, é ato pedagógico desvelar as contradições existentes, evidenciá-las com vista à sua superação. “O educador, nesse sentido, não é o que cria as contradições e os conflitos, ele apenas as revela, isto é, tira os homens da inconsciência. Educar passa a ser essencialmente conscientizar” (GADOTTI, 2001).
Fonte: Autores
A escola, como entidade socializadora, tem hoje a responsabilidade e uma participação fundamental na formação do caráter dos indivíduos que estão sob a sua admoestação formal. Diferentemente da educação tribal, onde todos tinham o dever e participação desde a formação do caráter das crianças até a preparação para a vida (ARANHA 2001), em nossos dias observa-se certa falta de comprometimento e envolvimento por parte da família e, em parte, falta mais empenho por parte da escola no que se refere a intervenções sociais na comunidade local, visando a preparação e formação do caráter social dos alunos, fator este que aumenta ainda mais a responsabilidade da escola quanto a seu verdadeiro papel na sociedade. Espera-se que a escola da atualidade tenha a função não só de transmitir conhecimentos, mas também de repensar que tipo de sociedade pretende construir, criando relações e preparando base para lidar com as contradições da sociedade, suas diferenças e conflitos.
3. ESCOLA E FAMÍLIA: UMA UNIÃO QUE DÁ CERTO
Na Lei de Diretrizes e Bases (LDB, Art. 12, VI), os estabelecimentos de ensino, respeitando as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola. Ao longo do tempo, aconteceram grandes mudanças no mecanismo da socialização. O processo de socialização no que se refere à educação no Brasil, segundo Aranha (2001), a educação era feita por duas instituições básicas: a família e a igreja, sendo que as duas estavam baseadas na moral e na ética. A terceira era a escola, e esta estava incumbida de transmitir os conhecimentos gerais da humanidade.
Apesar dos condicionantes estruturais que colocam a escola como uma instituição como outras, destinada a assegurar a criação e manutenção do suposto consenso social que legitima o sistema de dominação sob o qual vivemos, é possível pensar e realizar uma luta política que questione o sistema e busque a sua democratização, ou seja, vise a um maior respeito às diferenças, pluralize o debate, torne as relações internas mais igualitárias e leve em conta a diversidade de interesses e possibilidades de ação dos diversos grupos de interação. A realidade social é complexa, dinâmica, plural, imprevisível, repleta de possibilidades criativas e de meandros, não podendo, portanto, ser apenas o reflexo da estrutura que a condiciona. Deste modo, podemos afirmar que não é preciso esperar por mudanças estruturais para se desenvolver uma ação política transformadora. (OLIVEIRA, 2001, p. 29)
Diferentemente do tradicionalismo do passado e desenvolvendo um papel socialmente mais igualitário, com o passar do tempo a escola aprendeu a respeitar as diferenças. Celso Antunes (2006) reforça este pensamento quando diz que as diferenças existem, mas que cada um tem suas habilidades. A exemplo disto, o próprio Einstein foi um gênio matemático com problemas em suas relações interpessoais; Mozart projetou-se de forma sobre humana na música, mas não era assim extraordinário na escrita, como provavelmente Shakespeare sabia usar as palavras como nenhum outro em seu tempo. É preciso aceitar as diferenças e acreditar, diz Freire (2008), e acrescenta: se a educação sozinha não transforma, tampouco a sociedade muda. Neste caso, uma das fundamentais vias de transformação social é proveniente do processo educacional.
Alguns exemplos poderiam ser citados para demonstrar como a educação contribui, ainda que indiretamente, para a promoção de mudanças na sociedade. As tribos da África negra, quando recebem informações que melhorem suas técnicas de cultivo ou de criação de animais e passam a aplicá-las, com o objetivo de aumentar a quantidade de alimentos estão alterando seu modo de produzir por causa da educação. Quando estatísticas inglesas detectaram sinais de racismo e ódio aos estrangeiros (xenofobia) em crianças de 7 anos, as autoridades educacionais instituíram atividades pedagógicas de modo a contrapor a influência das famílias dessas crianças, certamente responsáveis pelo desenvolvimento de tais crenças. Quando pesquisas futuras indicarem diminuição deste tipo de sentimento, estará aí um exemplo de como a educação escolar ajudou a mudar as crenças e os valores predominantes em alguns grupos sociais.
As idéias iluministas marcaram profundamente a relação entre sociedade e educação. Elas criticavam as desigualdades e a opressão existentes nas sociedades ainda dominadas pela nobreza e pelo clero. Ao proclamar que todos os homens eram iguais e tinham os mesmos direitos, os iluministas estimularam movimentos revolucionários que se tornaram vitoriosos em várias partes do mundo. Orientados pelas idéias do iluminismo, os novos governantes se sentiram na obrigação de garantir que todos os cidadãos tivessem igualmente direito à educação. (FERREIRA, 1993, p. 220).
Cabe à escola arregaçar as mangas e escrever sua própria história usando como estandarte o coração, pois não existe educação sem paixão por ensinar. “Dos corações, que o mundo se refaz. E, já que a educação modela as almas e recria os corações, ela é a alavanca das mudanças sociais”. (FREIRE, 2001). Para Lopes (1995), provavelmente não há prática social na qual estejamos mais duradouramente inseridos que a educação, individual ou coletivamente. Quer em uma ou outra perspectiva, trata-se de uma prática social histórica. Possui uma história (que foi ou não escrita). E produz uma história (que poderá ou não ser escrita). Para Gadotti (2001), “educar essa sociedade é tarefa de partido, isto é, não educa aquele que ignora o momento em que vive, aquele que pensa estar alheio ao conflito que o cerca”.
Existe um provérbio popular que diz: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Se as famílias não vão à escola, não se envolvem no processo educacional do discente, não seria o caso da escola ir ao encontro destas famílias? Desenvolver algum tipo de ação para mudar essa história. Entre as escolas pesquisadas, a maioria se queixa da ausência das famílias na educação dos filhos; e essa realidade é comprovada nos números: numa pesquisa onde trinta famílias foram visitadas, apenas seis teriam algum tipo de participação efetiva na educação dos filhos, ou seja, apenas 3% toma algum tipo de iniciativa própria, 17% atribuíram que a escola promove ações que envolve suas participações eventuais na escola e lamentavelmente 80% corresponde aos que estão sempre muito ocupados para se envolver diretamente na educação dos filhos. Não se vive somente de consciência, é preciso repensar atitudes, reconstruir a forma do fazer educação, onde as famílias sejam coadjuvantes deste processo histórico.
Se antes a transformação social era entendida de forma simplista, fazendo-se com a mudança, primeiro das consciências, como se fosse a consciência, de fato, a transformadora do real, agora a transformação social é percebida como processo histórico em que subjetividade e objetividade se prendem dialeticamente. Já não há como absolutizar nem uma nem a outra. (FREIRE, 2001, p. 30).
Fonte: Autores
4. EDUCADOR E POLÍTICA: O CAMINHO MAIS CURTO PARA SE FAZER EDUCAÇÃO SOCIAL
Consta nas leis de diretrizes e bases (LDB Art. 13, VI) que os docentes incumbir-se-ão de colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade. “O papel do pedagogo é um papel político” (GADOTTI, 2001). O dicionário MICHAELIS (2000) define política como arte ou vocação de guiar ou influenciar. Então, Gadotti ressalta que não basta sermos competentes para sermos educadores. “É o grau de consciência política que define se somos ou não educadores. Portanto, a formação do novo educador se dará a partir de uma sólida formação política e social.” (GADOTTI, 2001).
A questão da coerência entre a opção proclamada e a prática é uma das exigências que educadores críticos se fazem a si mesmos. É que sabem muito bem que não é o discurso o que ajuíza a prática, mas a prática que ajuíza o discurso. Nem sempre, infelizmente, muitos de nós, educadoras e educadores que proclamamos uma opção democrática, temos uma prática em coerência com o nosso discurso avançado. Daí que o nosso discurso, incoerente com a nossa prática, vire puro palavreado. (FREIRE, 2001, p. 25).
De cento e oitenta e quatro professores pesquisados da rede pública de ensino, segundo o depoimento dos gestores escolares ou coordenadores pedagógicos, somente dezenove desenvolvem alguma ação, dentro do seu plano de curso, que envolve os pais de alunos como parceiros de atividades didáticas dentro da escola, isso corresponde a 10%, enquanto 90% não desenvolvem nenhum tipo de atividade socializadora que venha atrair as famílias como parceiras da escola. Curiosamente, com base na pesquisa, esses professores mais atuantes são os de Artes e Educação Física.
Fonte: Autores
O educador, ao reavaliar a educação, seu modo de ser e agir, cria possibilidades para repensar também a sociedade que pretende ajudar a construir. Educadores precisam constantemente reavaliar suas crenças referentes à educação, ou seja, é preciso buscar, investir, dedicar-se muito mais às qualificações, pois só assim os professores poderão ter uma participação histórica na formação de uma sociedade democrática, com mais cumplicidade e espírito coletivo. Ao invés de apontar culpados, melhor seria que a criticidade começasse dentro da nossa casa, procurando corrigir a visão embaçada ou desfocada, considerando que a escola é responsável pela promoção do desenvolvimento do cidadão de acordo com a sua visão de sociedade.
Para Stenhouse (2008) todo professor deve ser um investigador para ser capaz de criar seu próprio currículo. Essa teoria mostra que a escola deve ser capaz de gerenciar sua autonomia, perceber as carências e necessidades sociais, e se empenhar em favor de superar e corrigir estas dificuldades e deficiências mediante a criatividade e flexibilidade curricular, objetivando a formação do caráter de sua clientela.
Para Gadotti (1995), uma escola pública autônoma tem maiores chances de garantir a qualidade de ensino do que uma escola obediente, submissa e burocratizada. Espera-se que a escola venha conquistar certa autonomia, para estabelecer sua identidade, na superação dos problemas da comunidade a que pertence e conhece bem. Do contrário, a escola não estará efetivamente cumprindo seu papel, socializando o conhecimento. Segundo Florestan Fernandes (NOVA ESCOLA, 2008), “na sala de aula, o professor precisa ser um cidadão”. Já no entendimento de Gadotti (1998), a educação não é neutra: ou se educa para o silêncio, para a submissão, ou com o intuito de dar a palavra, de não deixar calar as angústias e as necessidades daqueles que estão sob a responsabilidade, mesmo que temporária, de educadores e educadoras nos âmbitos escolares. Para Paulo Freire (1996) a escola tem um papel bem mais amplo do que simplesmente passar conteúdos: ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebeu-se, com a realização deste trabalho de investigação, que a grande maioria das escolas públicas da atualidade têm se comportado de forma passiva diante da ausência das famílias como parceiras na educação do discente. Esta afirmação baseia-se na estatística apresentada como resultado da pesquisa realizada no município de Itaparica. Espera-se, portanto, que este artigo possa ser um instrumento de reflexão para os agentes educacionais sobre a importância de concentrar esforços na formação do caráter e da preparação dos indivíduos para viver em sociedade. Fica claro, com base no estudo apresentado, que a intervenção da escola como o principal agente deste processo de formação e socialização pode influenciar fundamentalmente a sociedade local em que está inserida, bem como sua clientela, no momento em que suas estratégias pedagógicas tenham maior amplitude, a fim de ser capaz de fazer uma leitura de mundo e traçar estratégias que venham alcançar os grupos sociais que com ela se relacionam.
Segundo o estudo e a pesquisa realizada, também se percebeu que assumir um comportamento político, por parte do professor e do gestor, é muito mais que simplesmente oferecer conhecimento e preparação para experiências futuras, no instante em que eles, como representantes da classe educadora, identificarem os problemas de ordem social que estejam ligados direta ou indiretamente à escola, e assim, uma vez diagnosticada a presença desta problemática, mostrar pela ótica educacional que educação se faz com amor, com participação mútua. Tem a escola, portanto, o desafio de elucidar para as pessoas ausentes deste compromisso uma visão de mundo onde a parceria é de extrema relevância para a formação do caráter social e para o sucesso nos mais diversos âmbitos da vida. É provável que a escola, assumindo esse papel de mediadora entre a sociedade e o processo educacional, certamente reescreverá sua história e alcançará um patamar mais elevado em seus objetivos de educar para vida.
Esta pesquisa revelou, em grande percentual, o quanto a família se abstém do compromisso e da participação na educação dos filhos; por outro lado, também ficou bastante claro que a escola tem sido apenas expectadora deste fenômeno social. É preciso que os profissionais da educação venham destacar que cada indivíduo tem participação indispensável no convívio e no processo de desenvolvimento de uma sociedade. Portanto, espera-se que esse trabalho de pesquisa de cunho cientifico possa gerar reflexão, desencadear inquietações, provocar discussões e trazer à responsabilidade todos os que estão envolvidos no processo educacional, quanto ao papel social da escola na comunidade em que está inserida.
BIBLIOGRAFIA - ANTUNES, Celso. Inteligências Múltiplas, Petrópolis – RJ, Vozes, 2006. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação, São Paulo – SP, Moderna, 2001. BRASIL, LDB Lei 9.394, 1996. DEMO, Pedro. Sociologia: Uma Introdução Crítica, 2ª Edição, São Paulo, Editora Atlas 1995. FERREIRA, Roberto Martins. Sociologia da Educação, 1ª Edição, São Paulo, Moderna, 1993. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, São Paulo – SP, Paz e Terra, 1996. _______. A importância do ato de ler, 41 edição – São Paulo, Cortez, 2001. GADOTTI, Moacir. Escola Vivida, Escola Projetada, 2ª Edição, Campinas, SP: Papirus, 1995. _________. Pedagogia da práxis, 2.ª ed., São Paulo, Cortez, 1998. _________. Educação e Poder: Introdução a Pedagogia do Conflito, 12 edição – São Paulo, Cortez, 2001. LOPES, Eliane Marta Teixeira. Perspectivas Históricas da Educação, 4ª edição – São Paulo, Ática, 1995. OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Democracia no cotidiano da escola, 2ª edição – Rio de Janeiro, Editora DP&A: SEPE, 2001. OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução a Sociologia da Educação, São Paulo, Ática, 1993. REIMER, Everett. A Escola Está Morta, Alternativas em Educação; Tradução de Tony Thompson, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, 1979.Revista Nova Escola, Grandes Pensadores, edição especial, julho, 2008.[1] Aluno do 8º semestre do curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Educacionais em Vera Cruz – BA - [2] Pedagogo – Psicopedagogo, Especialista em Gestão de RH e Metodologia e Didática do Ensino Superior. AUTORIA E FONTE: NOBRE, Francisco Edileudo; SULZART, Silvano. O papel social da escola. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 03, pp. 103-115, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959.
O PAPEL SOCIAL DA ESCOLA - Um questionamento do papel da escola na atualidade e sua Responsabilidade Social! Palestra com Prof.; Múcio Morais; faça contato: 031 99389-7951
Posso afirmar sem medo que o "ambiente escolar" é um dos fatores mais determinantes para o desenvolvimento do processo educacional, desde os vínculos familiares dos Pais com a Escola, até o dia a a dia dos professores, alunos e equipe de apoio. Onde o ambiente é "carregado" as coisas não fluem, o rio não corre, o vento não assopra, há um ambiente desértico, árido e desestimulador.
E a responsabilidade é de quem? Romantizando o tema, poderia dizer que a responsabilidade é de todos, e de certa forma é mesmo, mas esta responsabilidade precisa ser despertada e construída com base nas ações da liderança escolar, é este o ponto chave do ambiente, um gestor capaz de administrar diferenças, interesses, integração. Capaz de estimular ações, pensamentos e comportamentos, com base em seu sistema de crenças e valores com elementos de harmonia, bom senso, reconhecimento e fortemente humanizado, e, o mais isento possível de "estrelismo, partidarismo e vaidade",
Precisamos responder às perguntas:
Porque me sinto desconfortável como gestor(a)?
Porque a equipe não se esforça? Coopera pouco?
Como fazer os alunos gostarem da escola?
Como fazer as famílias gostarem da escola? (Entenda, com ou sem a família temos um trabalho a fazer)
Como manter o foco da escola como um todo?
O que pode mexer com meus professores e mudar seu estado de espírito?
Que tipo de líder eu sou?
Que tipo de líder quero ser?
O ESTILO DE LIDERANÇA E AS CRENÇAS DO LÍDER DETERMINAM O AMBIENTE, A ENERGIA E O ENGAJAMENTO DA EQUIPE E DAS PESSOAS ENVOLVIDAS. MÚCIO MORAIS
Este workshop trás reflexões profundas para os gestores escolares, promove um processo de mudanças, revela e responsabiliza, sem demonizar as pessoas. Vamos discutir os elementos presentes no Ambiente, trazer soluções, ideias, ferramentas e processos para mudar a realidade de muitas escolas.
NAO PODEMOS AJUDAR NA MUDANÇA DE QUEM NÃO RESPEITAMOS. MÚCIO MORAIS
O GESTOR QUE NÃO CORRIGE OS RUMOS DA SUA ESCOLA É COMO UM CAPITÃO QUE MANTEM A ROTA, MESMO SABENDO QUE HAVERÁ UMA COLISÃO EM ALGUM MOMENTO. MÚCIO MORAIS
RESUMO: Estudos
realizados em todo
o mundo evidenciam
que os educadores correm o risco
de sofrer burnout (esgotamento físico ou mental, em face das
dificuldades materiais e
psicológicas associadas ao
exercício da atividade docente).
Foram
revisados os artigos publicados entre 1990 e
2013, utilizando as palavras-chave depression (depressão),
quality of life (qualidade de vida), depressive-symptoms
(sintomas depressivos), well-being (bem-estar), happiness (felicidade) e
remission predictors (preditores de remissão), doenças dos professores
(teachers' diseases), trabalho
docente (teachers' work), doenças ocupacionais (occupational
diseases), estresse e trabalho (stress and work). Foi observado
que a presença de sintomas
depressivos afeta todas as dimensões
da qualidade de
vida e, conforme
a gravidade desses
sintomas, o seu impacto na
qualidade de vida pode ser maior do que o de outras doenças crônicas.
Os resultados sugerem
que a presença
de sintomas depressivos exercem um importante impacto na
qualidade de vida dos professores, não se restringindo apenas
às características clínicas
do transtorno. Os transtornos mentais foram significativamente associados
à experiência com
a violência e piores
condições ambientais, ambiente
físico e conforto
no trabalho, e organizacionais, margem de autonomia, de
criatividade e tempo no preparo das aulas.
Os resultados apontam para uma situação grave
relativamente à saúde da população pesquisada
e fornecem elementos
consistentes para a proposição
de medidas com
vistas à melhoria
das condições de
trabalho docente.
PALAVRAS-CHAVE:Trabalho
docente;Professor; Síndrome de
burnout; Saúde mental e trabalho.1Professora auxiliar do curso de Análises
clínicas do Centro Universitário UNIRG. 2Professor adjunto de Parasitologia do
Centro Universitário UNIRG. E-mail: gontijobio@yahoo.com.br. 3Orientadora
-Professorado Programa de Pós-graduação em Gestão e Desenvolvimento Regional
-PPGDR -Universidade de Taubaté.
INTRODUÇÃO
Os docentes
são uma das categorias mais expostas
a ambientes conflituosos e
de alta exigência
de trabalho, tais
como tarefas extraclasse, reuniões e
atividades adicionais, problemas
com alunos que
chegam até ameaças verbais
e físicas. Esta realidade
estressante pode causar
repercussões na saúde
física e mental
e no desempenho
profissional dos professores
(Capel, 1987; Maslach, 1981).
O impacto dos fatores estressantes sobre profissões
que requerem condições
de trabalho específicas,
com grau elevado de
relação com o
público, como a
do professor, tem
sido tratada no Brasil pela
denominação de burnout (Síndrome do
Esgotamento
Profissional)(Ministério da Saúde,
2001). Esta é uma síndrome
de exaustão emocional de atitudes negativas dos
profissionais em relação aos sentimentos dos indivíduos para os
quais dirigem o
seu trabalho, visto
que os seus
recursos emocionais estão
esgotados.
As conseqüências da Síndrome do Esgotamento Profissional
são muito sérias
para os vários
setores relacionados a
educação: professor, aluno, instituição.
As mudanças do
papel do professor
na sociedade refletem na
prática de ensino
e na saúde
do professor, resultando
em absenteísmo(ausência do colaborador no
ambiente de trabalho o
que provoca problemas como
desorganização das atividades,
queda na qualidade
dos serviços prestados, limitação
de desempenho e
até mesmo obstáculos
para os gestores)além da forma
despersonalizada com que os professores começam a tratar os alunos (Carlotto,
2002; Carlotto, 2003).
A partir da década de 90, no Brasil, cresceu o número de
investigações acerca do processo
saúde-doença nesse grupo
ocupacional. Essas
investigações têm dado visibilidade aos processos de adoecimento ocorridos e
sustentado a necessidade
de intervenções nas
condições de trabalho
dos professores (Araújo, 2003; Codo,
2000; Silvany-Neto, 2000;
Wernick, 2000; Delcor, 2004).
Os estudos sobre
condições de trabalho
demonstram uma crescente precarização
e deterioração das
condições laborais dos
docentes: desvalorização do trabalho,
baixos salários, múltiplos
empregos, formação deficiente,
postura corporal inadequada, exposição ao
pó de giz,
ruídos, infra-estrutura precária
e carência de recursos materiais e humanos que acentuam a sobrecarga de
trabalho desses profissionais (Souza, 2003).Este
trabalho se propõe a fazer uma
revisão de literatura sobre o tema depressão na docência, por entender a grande
relevância do problema para a classe docente no Brasil.
METODOLOGIAA
revisão bibliográfica realizada
foi do tipo
sistemática, que é definida por
Greenhalgh (1997, p.
672),“como uma síntese de estudos primários que contém objetivos,
materiais e métodos
claramente explicitados e
que foi conduzida de acordo com
uma metodologia clara e reprodutível”.
Esta revisão bibliográfica
foi realizada através
dos sistemas Bireme, PubMed, Medline
eScielo entre os
anos de 1990-2013
utilizando-se as palavras-chave
depression (depressão), quality of life (qualidade de
vida), depressive-symptoms (sintomas
depressivos), well-being (bem-estar), happiness (felicidade) e remission
predictors (preditores de remissão), doenças dos professores
(teachers' diseases), trabalho
docente (teachers' work), doenças ocupacionais (occupational
diseases), estresse e trabalho (stress and work).Foram encontrados 11artigos no Bireme, 181no PubMed, 9067 no Medlinee462 no Scielo,
totalizando 9721encartes.
Foram incluídos no estudo artigos de
língua inglesa, portuguesa
ou espanhola, que
apresentassem sujeitos entre 18-65
anos de idade,
que utilizava em alguma
definição de transtornos
depressivos e que se baseassem em algum construto teórico sobre qualidade de
vida com a utilização de instrumentos específicos para avaliação da questão
docente.
Todos os artigos
que de alguma
forma se tratava
de depressão de professores foram lidos na íntegra já os
demais foram excluídos após a análise do
resumo. Foram excluídos artigos
nos quais os
sujeitos apresentassem
sintomas depressivos secundários
a alguma condição
médica, ou ensaios clínicos para
avaliação da qualidade de vida
em sujeitos em
uso de antidepressivos, assim
foram analisados 26artigos que se enquadraram dentro dos critérios propostos.
Procedeu-se a
uma análise das
informações à luz
da literatura disponível sobre
o assunto(Síndrome de burnout na docência) de modo a
permitir a verificação
de convergências, divergências
e possíveis lacunas
no conhecimento acumulado.
RESULTADOSE DISCUSSÃO
A análise e
confronto dos dados evidenciaram um problema
a nível nacional, que em maior ou
menor grau atinge a classe docente brasileira, tanto no nível fundamental,
médio e superior de ensino. Carlotto
(2011) ao estudar uma
amostra de 881 professores de oito escolas públicas
e seis escolas
privadas de médio
porte na zona urbana de três
cidades localizadas na
região metropolitana de
Porto Alegre –RS encontrou
resultados que evidenciaram 5,6% de professores com alto nível de exaustão emocional,
0,7% em despersonalização e
28,9% com baixa realização profissional. Esses resultados
identificaram que quanto
maior a idade
dos professores, maior é o sentimento de distanciamento e menor o de
realização no trabalho. Com relação à carga horária, verificou-se que quanto
mais elevada maior é o
sentimento de desgaste
emocional e menor
o sentimento de realização com
o trabalho.
A elevação do
número de alunos
atendidos diariamente
aumenta o desgaste
emocional, o distanciamento e
diminui a realização
profissional. As mulheres apresentavam maior exaustão emocional e maior realização
no trabalho, sendo
que homens apresentam
maior despersonalização. Quanto à
situação conjugal, verificou-se
que sujeitos sem companheiro fixo
possuem maior realização
no trabalho.
Professores sem
filhos possuíam maior exaustão emocional
e os que
têm filhos menor despersonalização e realização no
trabalho. Valério, Amorim, Moser(2009)
em pesquisa feita
com 186 professores da rede
Municipal de Ensino
de Curitiba, atuantes
no 1º e
2º ciclo do
Ensino Fundamental encontraram 29,3%
dos professores com sintomas
que se assemelhavam a Síndrome
de Burnout. A faixa etária mais afetada foi de 31 a40 anos
de idade, indivíduos
do sexo feminino e
casados (66,7%). A faixa de experiência profissional
ficou entre 10
a 20 anos
de profissão. A faixa
etária que mais concentra professores doentes é entre 31 a 40 anos,
assim como em professores com estresse,
não existe um
consenso na literatura
sobre a correlação ou não entre
faixa etária e a Síndrome de Burnout.
Neste mesmo trabalho foi observado que o número de horas
trabalhadas por semana estava
diretamente ligada ao Burnout.
Os resultados apontaram que os professores afetados pelo
Burnout, 66,7% trabalham mais de 41 horas por
semana, ou seja, mais
de três turnos
diários, sem contar
as horas gastas com tarefas domésticas e trabalho
levado para casa, como correção de provas e trabalhos escolares.
Assunção
(2008) realizou uma
pesquisa com 1980
professores de Belo
Horizonte onde foi
observado o uso
de medicamento para
depressão ou ansiedade e para
alterações do sono foi relatado por, respectivamente, 23% e 11% dos
professores. Foi observado que trabalhar em dois turnos foi associado aos transtornos
mentais. Os resultados mostraram
que os professores que presenciaram um ou mais de um episódio de
agressão praticado na escola por alunos,
pais de alunos,
professores ou funcionários
e mais de um
episódio praticado por pessoas
externas à escola
têm mais chance
de apresentarem transtorno mental
quando comparadas àquelas
que nunca vivenciaram episódios de
agressão no ambiente
escolar.
Problemasrazoáveisouruinsde relacionamentocomsuperiores, colegas,alunosoupaisdealunostambém foramassociadosàpresençadetranstornomental. Foiobservadoque os professores,depoisdeintervireminúmerasvezesparasepararbrigasde alunos em sala de aula, deixam, outras vezes, de dar atenção ao fato.
Ou seja, háummomentoemqueelasignoramoseventosdeindisciplina,parecendo expressarumaestratégiaparalidar,noseulimite,comocansaçoeosseus efeitos.
O aparente desligamento seria uma manifestação de
sofrimento diante de uma situação que requereu à exaustão a sua energia.
Noronha (2008) também
identificou os sentimentos
de insatisfação, frustração e
ansiedade relatados nas
entrevistas, evidenciando a associação entre as
queixas de cansaço
e sobre esforço
físico e mental
solicitados pelo conjunto das
atividades estudadas por meio das técnicas da escola francesa de ergonomia.
Benevides-Pereira, Yaegashi, Alves
e Lara (2008)
analisando a Síndrome de Burnout
em professores Paranaenses, também encontraram que 43,3 %
dos professores pesquisados apresentavam elevados
níveis de exaustão emocional. Em
professores da cidade de Vitória da Conquista, Bahia, a prevalência de
distúrbios psíquicos foi de 41,5% (Delcor, 2004).Araújo et
al.,(2004) realizaram um
estudo em 530
docentes da Universidade Estadual de
Feira de Santana
onde foi observado
que 286 (54,96%) apresentaram
alguma alteração relacionada a saúde mental.
O estudo de Siqueira, Ferreira (2003) encontrou
resultados semelhantes. Com o objetivo de investigar o absenteísmo docente no
ensino fundamental, as autoras estudaram as professoras das séries iniciais da
rede pública de ensino da cidade de
Florianópolis (SC) por
meio da análise
dos prontuários dos docentes
que se afastaram do
trabalho para tratamento de
saúde. Constatou-se que
as causas mais
freqüentes geradoras desses
afastamentos foram, em ordem
decrescente: as doenças
do aparelho respiratório,
os problemas do aparelho
locomotor, os problemas
de saúde na
família e problemas psicológicos e/
ou psiquiátricos.
Embora no estudo
citado os transtornos psíquicos ocupem
o quarto lugar
nas causas de
afastamento do trabalho
em docentes, ainda assim se encontram entre os mais prevalentes, bem
como os problemas respiratórios e do aparelho locomotor. Um estudo
quali-quantitativo,
envolvendo 163 professores de Santa Maria
(RS), investigou o
estresse e os
seus principais agentes desencadeadores, frente à inclusão
de alunos com necessidades educacionais especiais. Nesse
estudo, foram identificados
vários agentes estressores
com os quais o
professor tem de
lidar no seu
cotidiano profissional. A
falta de preparo dos
professores para o
processo de inclusão
foi a principal
fonte geradora de estresse
por eles apresentada.
Os docentes pesquisados
citam como fatores de agravamento do problema a quase inexistência de
projetos de educação continuada que
os capacite para
enfrentar a "nova" demanda educacional; o
elevado número de
alunos por turmas;
a infraestrutura física inadequada; a
falta de trabalhos
pedagógicos em equipe;
o desinteresse da família
em acompanhar a
trajetória escolar de
seus filhos; a
indisciplina cada vez maior;
a desvalorização profissional
e os baixos
salários, situações que fogem
de seu controle
e preparo. Sentimentos de
desilusão, de
desencantamento com a
profissão foram freqüentemente relatados, evidenciando a
vulnerabilidade dos profissionais
estudados ao estresse.
A autora
desse estudo conclui
que as atividades
pedagógicas permeadas por circunstâncias desfavoráveis
forçam a uma
reorganização e improvisação
no trabalho planejado, distorcem
o conteúdo das
atividades e tornam
o trabalho descaracterizado em
relação às expectativas, gerando
um processo de permanente insatisfação
e induzindo a
sentimentos de indignidade,
fracasso, impotência, culpa e desejo de desistir, entre outros
(Naujorks, 2002).
O estudo ergonômico realizado por Gomes (2002) em um
grupo de onze professores (sete mulheres
e quatro homens),
com idade entre
26 e 60
anos, em uma escola
estadual do Rio
de Janeiro, com
283 professores e
cinco mil alunos, sendo
40 a 45
alunos por turma, divididos em
três turnos, evidenciaram: insatisfação
por trabalhar em
mais de uma
escola; referência à sobrecarga
de trabalho determinada
por diferentes fatores
(gestão, política, infraestrutura e
tempo).
A autora menciona
a invasão do
tempo e do
espaço extraescolar pelo trabalho, a intensificação das atividades no
final do ano letivo e o número excessivo de alunos por turno. Finalmente, o
estudo citado aborda os efeitos da
situação diagnosticada, refletindo-se
em agitação, estresse
e irritação do professor,
que se sente
responsável pela formação
ética e moral dos
alunos.
Os problemas de
saúde identificados foram:
sensação de :
O cenário da
escola deixa pouca margem
para a criatividade
e autonomia do
professor face às
normas educacionais
vigentes, assim como
a obrigatoriedade de
formação específica em cursos
estipulados pelo seu
gestor e, também,
prescrição do tipo
de avaliação dos alunos. Em
Campinas, estudo realizado
entre os professores da rede particular no ano de 2000 coloca em
evidência a contaminação do tempo extra trabalho, sendo freqüentes as
dificuldades em realizar as tarefas diárias com satisfação explicando o
quadro encontrado de nervosismo, tensão
e preocupação (Oliveira, 2001).
Codo (2000) estudou
uma amostra de
quase 39 mil
trabalhadores em educação em
1.440 escolas de
todo o país
e identificou que
32% dos indivíduos apresentavam
baixo envolvimento emocional
com a tarefa,
25% se encontravam com
exaustão emocional e 11%
com quadro de despersonalização, podendo-se
dizer, em termos
práticos, que 48%
da população estudada apresentava burnout (um estado
de esgotamento físico e
mental cuja causa
está intimamente ligada
à vida profissional).
O autor
esclarece os elementos que podem
estar associados às
queixas e ao adoecimento. Lembra que o trabalho do
professor não se restringe ao exercício de
sua função dentro
da sala de
aula, exige atualização
e preparação constantes para
ser realizado de
modo satisfatório. Muitas
tarefas são realizadas sem a
presença dos alunos, fora da sala de aula e, freqüentemente, fora da escola,
estendendo a jornada de trabalho.
Quando o professor ministra aulas em
várias turmas para
alunos em níveis
de ensino, escolas
e turnos diferentes, a
preparação das aulas
vai requerer avaliações
múltiplas e esquemas
variados. Serão necessários
maior investimento de
tempo na execução de um volume
maior de trabalho
e mais dedicação
e esforço intelectual.
É Codo ainda
que enfatiza o
maior investimento emocional, na
medida em que diariamente
são estabelecidos vínculos
com os alunos,
com outros professores e
funcionários da escola.
No conjunto, os
fatores citados explicariam a
sobrecarga mental, situação que culmina com a exaustão mental, em que
o professor se
sente exaurido emocionalmente e
o trabalho perde
o sentido.
As situações mais frequentemente vividas, geradas pelo
sofrimento no trabalho, são:
Depressão,
Fadiga,
Insatisfação,
Frustração,
Medo,
Angústia
Ansiedade,
Exaustão.
Zaragoza (1999) chamou de mal-estar docente a sensação de
mal-estar difusoeelaborouummodeloparaexplicarasrelaçõesfuncionaisexistentes entre os
múltiplos fatores indicadores do sintoma. Esse modelo considera que umadeterminadacombinaçãodefatorespodeconduziros professoresaum
estadodeansiedade,denominadoesgotamentodocente,queafetasua personalidade.
São
mencionados os professores
que souberam elaborar respostas efetivas
e integradas ante
o aumento de
exigências e a
enorme transformação a que
se viu submetida
a profissão docente.
Às situações problemáticas que
solicitam uma resposta do professor para reduzir o peso dos estímulos
ameaçadores o autor chama de "tensão" e "estresse".
Ainda para Zaragoza,
o absenteísmo seria
um mecanismo de
defesa utilizado contra a
tensão derivada do
exercício docente, uma
forma de atingir um alívio para escapar das tensões
acumuladas. Pitthers; Fogarty
(1995) avaliaram o
estresse e a
tensão ocupacionais em professores
utilizando o Occupational Stress
Inventory, instrumento que avalia estresse ocupacional, sobrecarga
acumulada e estratégias adotadas. Os maiores escores foram encontrados entre os
professores, quando comparados com
outros profissionais.
Os resultados foram
associados à sobrecarga
de trabalho e aos conflitos com os superiores e as normas. Os autores
ainda citam o estudo de Punch e
Tuetteman, realizado em
1990, que avaliou
574 professores na Austrália e encontrou níveis de estresse psicológico
duas vezes maior do que
na população em
geral.
Estudos
realizados nos EUA
(1976), Austrália e Nova Zelândia (1982) e Reino Unido (1991), citados pelos
mesmos autores, mostraram que
um terço dos
professores avaliados consideram
seu trabalho "estressante" ou "muito estressante".Shonfeld (1992)
realizou um estudo
longitudinal envolvendo 255 professoras recém-contratadas, na
cidade de Nova
York, com o
objetivo de estimar os
efeitos das condições
de trabalho sobre
sintomas depressivos no grupo
alvo. Esse autor
avaliou os sintomas
depressivos pelo Center of Epidemilogic Studies -Depression Scale).
O suporte social
foi avaliado pelo Interpersonal Support
Evaluation List. Para
avaliar o grau
de nocividade do ambiente
escolar, foram desenvolvidos
dois instrumentos: o Episodic
Stressor Scale e o Strain Scale, distinguindo estressores eventuais de
permanentes.
Os resultados
mostraram uma forte
associação entre sintomas
depressivos e ambientes de
trabalho nocivos, bem
como o surgimento
precoce dos efeitos pesquisados, que se mantêm
mesmo quando outros
fatores de risco
são controlados. Nesse estudo,
o autor lembra
também os resultados
de sua pesquisa anterior,
que associam ambientes perigosos,
frustrantes ou carentes de controle a
doenças depressivas.
CONCLUSÕES
Os dados e
as conclusões dos
estudos interessados em
descrever o perfil de
adoecimento dos professores
são convergentes, independentemente da população
e da região
estudada. De forma geral
este grupo ocupacional apresentou elevada
proporção de queixas
e diagnósticos de
problemas de saúde.
Destacou-se a elevada
prevalência de professores
com distúrbios psíquicos. O
acúmulo de conhecimentos no campo de estudo das relações saúde e trabalho
docente permite supor associações
entre os problemas
de saúde identificados na
categoria dos professores
e as condições
ergonômicas de trabalho também
descritas na literatura consultada.
Seriam úteis desenhos
de estudos voltados
para compreender a inadequação entre as mudanças educacionais
propostas e implementadas, e a realidade
que os trabalhadores enfrentam
nas escolas. As
contradições existentes
podem estar na
origem da exposição
aos fatores de
risco para o adoecimento da categoria dos trabalhadores
do ensino.
Provavelmente,
através do entendimento de
medidas subjetivas e objetivas de recuperação dos docentes com
sintomas depressivos, poderão se buscar
intervenções mais eficazes
e que provoquem
melhorias no funcionamento
global dessa população.
Sendo assim, a avaliação da qualidade de vida aparece
como um desfecho relevante, pois
pela sua
multidimensionalidade é potencialmente capaz
de detectar a magnitude
e a abrangência do
comprometimento que a depressão impõe.
REFERÊNCIAS ARAÚJO,T.M.; REIS,E.; KAVALKIEVCZ,C.;
DELCOR,N.S.; PARANHOS,I.; SILVANY-NETO,A.;
CARVALHO,FM.; PORTO,L.; WERNICK ,R. Saúde e Trabalho
Docente: Dando visibilidade
aos processos de
desgaste e adoecimento docente
a partir da
construção de uma
rede de produção coletiva. Educação em Revista; 2003;
37: 183-212.ARAÚJO,T.M.; SEM,I.P.; VIANA,M.A.; ARAÚJO,E.M.. Mal-estar docente:
avaliação de condições de trabalho e saúde em uma instituição de ensino. Organização desse artigo por Érica Eugênio Lourenço Gontijo, Marcos Gontijo da Silva, Nancy Julieta Inocente - Adaptação Múcio Morais.
PALESTRA /WORKSHOP SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES | 031 99389-7951 | PROFESOR MUCIO MORAIS