Surgiu,
então, o Projeto Apoena, implantado em diversas regiões, num total de 24 (vinte
e quatro) escolas, dentre as quais, na Cidade de Cáceres, a Escola Estadual
Onze de Março foi escolhida.
Quanto
à Síndrome de Burnout é o nome que recebeu o conjunto de três dimensões
(sintomas): exaustão emocional, baixo envolvimento no trabalho e,
despersonalização; estas podem se manifestar associadas, contudo são
independentes. Burnout ocorre como resposta
ao estresse ocupacional crônico e se caracteriza pelo aparente
desinteresse, mal estar interno ou insatisfação ocupacional que tem atingido os
trabalhadores do ensino. Estes ao se sentirem sem alternativas para
compartilhar suas dificuldades, anseios e preocupações, aumentam sua tensão
emocional, o que contribui para o surgimento da síndrome.Trata-se de um
conjunto de condutas negativas, representadas pela deterioração do rendimento,
o surgimento de condutas irresponsáveis, atitudes passivo-agressivas com os
outros e aniquilamento da motivação, para o que contribuiriam fatores internos,
tais como valores individuais e traços de personalidade, e, fatores externos,
representados por modelos de gestão organizacional, ocupacional e grupal.
As conseqüências
derivadas pelo acometimento de Burnout focalizam-se nas esferas pessoal
e institucional. Para o trabalhador, situações desconfortáveis, e, por vezes
insuportáveis, tanto pessoal como profissionalmente, à medida que passa a ser
estigmatizado pelos colegas ou pelos gestores, agravando o quadro da doença
manifesta. Por exemplo, a redução no
nível de satisfação profissional, implica em alto risco de acidentes, no
absenteísmo, na inconstância no emprego e inevitavelmente, culmina repercutindo
na estrutura familiar. Quanto à instituição afeta na qualidade do seu produto,
na redução do lucro, e na deterioração da sua imagem institucional.
A realidade que permeia as relações de trabalho
mostra-se altamente complexa, a exigir soluções criativas, assentadas em alguns
princípios e valores essenciais à transformação do que está posto; citamos a
título de exemplo, o direito universalizado à atenção, a promoção e a
proteção àqueles que trabalham, independente da forma singular de inserção
no processo produtivo; assim como direito à formação e, à informação
adequada e necessária, a cada usuário, sob princípios da solidariedade
efetiva e da ética, constantemente a nortear as decisões e, as ações políticas
e administrativas. Não nos podemos esquecer que as condições de saúde dos
trabalhadores do ensino dependem das condições em que eles realizam seu
trabalho, e, o problema que emerge, diante do que está posto, configura-se na
prisão, num cotidiano que se repete em sensações agonizantes, desestimulando
planos e expectativas futuras, ou seja, engessando possibilidades. O que nos
inquieta é perceber esta espécie de desamparo, a reportar-nos às palavras de
Alevato(1999)[1], seria
propositalmente esta situação conjetural para construir uma reserva de mercado
com um exército de loucos?
Por outro lado, constatamos que as patologias
psíquicas e mentais (depressão, alcoolismo, envelhecimento precoce, Burnout,
etc) já são reconhecidas pela Legislação Previdenciária, como doenças do
trabalho[2].
Consoante o artigo 340, do Decreto 3048, explicita que por meio dos segmentos:
estabelecimentos de ensino, sindicatos, organizações de classe, [...] serão
promovidas regularmente instrução e formação com vistas a incrementar costumes
e atitudes prevencionistas [...].(1999,
p.43).
Paulatinamente
vemos, que a fragilidade emocional provocada pela falta dos suportes afetivo
pessoal, profissional e social traz grande sofrimento, não ficando restrito
somente a um aspecto. Então, o estresse vem se tornando presença constante ao
longo da trajetória dos trabalhadores do ensino. Nesse sentido nos ensina
Pelletier[3]
(1997), que a capacidade de enfrentamento do estresse, não se trata de mera
questão de controle ou atitude pessoal, todavia, a possibilidade de reflexo
acerca da intensidade dos vínculos sociais estabelecidos, ou não; vínculos
estes que atuam como amortecedores dos impactos a que o trabalhador do ensino
está sujeito em seu cotidiano.
A
realidade social e econômica sob a qual cristalizou-se o modelo de relações de
trabalho educativos, que se chocam e ocasionam a doença, fez com que os
profissionais da educação se vejam encurralados diante do desafio de construir
uma escola jovem e, ao mesmo tempo, vencer limites impostos pela organização
do trabalho. Neste segmento produtivo, como se observa, a preocupação com a
saúde dos professores ainda não se fez presente. São raros os estudos técnicos
e acadêmicos sobre a saúde do trabalhador da educação e não temos visto
concreta iniciativa, como se os professores não fossem atingidos pelas doenças
do trabalho.
Como
formas de prevenção da Síndrome de Burnout, encontramos propostas
para que os trabalhadores do ensino evitem a monotonia, e para isso, aumentem
a variedade no cotidiano, prevenindo o excesso de horas dedicadas tão somente
ao trabalho. Também alertam sobre a importância do investimento na
capacitação profissional e pessoal dos trabalhadores, conjugada à
relevância da melhoria na qualidade das relações sociais.
Cremos
que, se houver vontade política dos gestores do serviço público, percebida por
suas ações efetivas direcionadas ao respeito, à consideração pelo trabalhador
do ensino, muito se conseguirá fazer, a favor da manutenção da integridade
física e moral do trabalhador. Contudo espera-se também, que se ações forem
noticiadas neste sentido, que sejam de fato e, de direito, para atender a todos
os trabalhadores, sem distinção, discriminação, ou, exclusão; porque diante de
todas as dificuldades pelas quais têm vivenciado os trabalhadores de ensino em
seu percurso, mais uma vez, se defrontarem com critérios que privilegiem a um
número reduzido de ‘escolhidos’, creio indubitavelmente, que a classe
trabalhadora de ensino, fará jus à uma comenda de heróis resistentes da
contemporaneidade.
Outrossim,
cremos que urge o debruçar de um olhar mais longe, com maior acuidade, qual Apoena[4],
para que o gestor do serviço público, veja o sofrimento do trabalhador do
ensino, possível de ser percebido pela fisionomia, no seu andar, no franzimento
por entre os olhos, no semblante representativo da sobrecarga; visível também
por meio das rugas cada vez mais precoces; na pobreza das relações
interpessoais, rumo ao isolamento, configurado pelo sofrimento, físico,
psíquico e moral; e, o não menos significativo e, sintomático da Síndrome
estudada, qual seja, o olhar da desistência . . .
Necessitamos
ressaltar que o ato de trabalhar por si só, não implica mal a alguém; contudo,
o excesso de trabalho, as condições organizacionais injustas, imorais e, as
perniciosas relações no trabalho é que impõem sofrimento. O cansaço físico ou
mental pode fazer parte, do cotidiano de um trabalho, entretanto, não sob
características comprometedoras da saúde do trabalhador do ensino, ao ponto que
se tornem crônicos. O que tem recebido o trabalhador de ensino, quando vende
sua força de trabalho para suprir suas necessidades materiais e afetivas? Seria
o saldo desse fato social, determinante na implantação da Síndrome
e, sua manutenção na carreira que abraçou?
No que
diz respeito à nossa preocupação ao iniciarmos esta investigação, ou seja,
conhecer as causa da Síndrome de Burnout segundo os trabalhadores de
Ensino da Escola Jovem de Cáceres, em quem foram detectados os indícios de
acometimento por esta síndrome, podemos consignar que a totalidade dos sujeitos
investigados imputou a causa principal, à parca remuneração percebida
mensalmente pelos trabalhadores, a título de salário. Todavia, outras foram
apontadas, com não menos ênfase tais como: insatisfação profissional; insatisfação
pessoal; desvalorização da profissão; não-reconhecimento da
profissão pelo valor social que tem; falta de incentivo por parte do
governo; não sentir prazer na profissão; não usufruir momentos de
lazer; porque não conseguem se desligar das preocupações com as dívidas
contraídas, face ao desequilíbrio entre o que recebem e, o que despendem para o
suprimento das necessidades básicas. Estas causas apontadas reforçam nosso
entendimento sobre a urgência dos órgãos competentes viabilizarem ações
preventivas e profiláticas no sentido de garantir ao trabalhador de ensino a
qualidade de vida no trabalho tão propagada na mídia nos últimos tempos e,
que vem se transformando em slogan pra muitos galgarem o ápice
político-partidário, sem que de fato e de direito tenhamos percebido sua
prática nas relações de trabalho do serviço público.
Entendemos
que o trabalhador do ensino precisa, realmente, de reconhecimento sobre valor
de sua contribuição social, para que seja liberto da carga mental peculiar a
esse trabalho que tem provocado sofrimento para quem o realiza; pois, ainda que
se esgote tentando valorizar a si, ao outro, e, ao trabalho, quando ele percebe
que a sociedade não reconhece a utilidade social do produto de seu trabalho,
ocorre a desistência simbólica e, então entra em Burnout. Pensamentos como o de Antunes (2002, p.175) ao
afirmar que uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada
de sentido dentro do trabalho, nos inclina para objeto de investigações
futuras acerca do sentido da vida para os trabalhadores em Burnout; teria
uma relação de causa e conseqüência? O sentido da vida e, o sentido do trabalho
poderiam ser variáveis interdependentes, ou, mediadoras na produção do
sofrimento psíquico daqueles acometidos pela Síndrome de Burnout?
Acreditamos que este objeto de estudo não se esgotou com a finalização desta investigação ora relatada. A nossa tomada de consciência, diante da complexidade do ser e do saber, nos aponta para um leque de discussões que doravante se descortinam, pelas veredas de nosso percurso que, prossegue ...
REFERÊNCIAS:
ALEVATO, Hilda Mª Rodrigues (1999). Humanos, ainda que professores. Tese de doutorado em Educação – Faculdade de Educação, centro de estudos sociais aplicados. Universidade Federal Fluminense-UFF. Niterói.
ALEVATO, Hilda Mª Rodrigues (1999). Trabalho
e neurose: enfrentando a loucura de um ambiente em crise. Rio de Janeiro:
Quartet.
Decreto Federal n. 3048, de 6 de maio de 1999, anexo
1, parágrafo VIII
PELLETIER,
K.(1997). Entre a mente e o corpo: estresse, emoções e saúde. In GOLEMAN, D. & GURIN, J. (orgs.) Equilíbrio mente-corpo: como usar sua mente
para uma saúde melhor. 2ª ed., Rio de
Janeiro: Campus, 1997: 15-31
Caixa de ferramentas da
Escola Jovem, 2001, p.9
[1] Dra. Hilda Alevato, Psicanalista/ Dra. em Educação e
Professora da Universidade Federal Fluminense-UFF.
[2] Regulamento da Previdência Social: Decreto Federal n.
3048, de 6 de maio de 1999, anexo 1, parágrafo VIII. O decreto adota a
expressão consagrada pela CID X (Classificação Estatística Internacional de
Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicação da Organização Mundial de
Saúde, editada no Brasil pela EDUSP).
[3]
PELLETIER, K. Entre a mente e o corpo: estresse, emoções e saúde. In
GOLEMAN, D. & GURIN, J. (orgs.) Equilíbrio mente-corpo: como usar sua mente
para uma saúde melhor. 2ª ed., Rio de
Janeiro: Campus, 1997: 15-31
[4] in
‘Caixa de ferramentas’ da Escola Jovem, 2001, p.9