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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

A SÍNDROME DE BURNOUT EM PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO - CAMPOS-SILVA,


Focalizamos nosso interesse na Síndrome da Desistência do trabalho, denominada Síndrome de Burnout. Nasceu face às angústias vivenciadas ao longo do encontro oferecido pelo Estado de Mato Grosso, por intermédio da Secretaria de Estado de Educação, face às reformas para o Ensino Médio, propostas no final de 2001. Tais reformas com o objetivo propagado de alcançar melhorias na qualidade do ensino, a princípio num número experimental de municípios e escolas, e, gradualmente, expandindo sua cobertura a todo Estado; assim, com a expectativa de contribuir para a garantia de maior eqüidade e, então, redução das diferenças  que obstaculizam o processo, o que certamente, propiciaria ao coletivo, reais possibilidades econômicas e sociais.

Surgiu, então, o Projeto Apoena, implantado em diversas regiões, num total de 24 (vinte e quatro) escolas, dentre as quais, na Cidade de Cáceres, a Escola Estadual Onze de Março foi escolhida.

Quanto à Síndrome de Burnout é o nome que recebeu o conjunto de três dimensões (sintomas): exaustão emocional, baixo envolvimento no trabalho e, despersonalização; estas podem se manifestar associadas, contudo são independentes.  Burnout ocorre como resposta ao estresse ocupacional crônico e se caracteriza pelo aparente desinteresse, mal estar interno ou insatisfação ocupacional que tem atingido os trabalhadores do ensino. Estes ao se sentirem sem alternativas para compartilhar suas dificuldades, anseios e preocupações, aumentam sua tensão emocional, o que contribui para o surgimento da síndrome.Trata-se de um conjunto de condutas negativas, representadas pela deterioração do rendimento, o surgimento de condutas irresponsáveis, atitudes passivo-agressivas com os outros e aniquilamento da motivação, para o que contribuiriam fatores internos, tais como valores individuais e traços de personalidade, e, fatores externos, representados por modelos de gestão organizacional, ocupacional e grupal.

As conseqüências derivadas pelo acometimento de Burnout focalizam-se nas esferas pessoal e institucional. Para o trabalhador, situações desconfortáveis, e, por vezes insuportáveis, tanto pessoal como profissionalmente, à medida que passa a ser estigmatizado pelos colegas ou pelos gestores, agravando o quadro da doença manifesta.  Por exemplo, a redução no nível de satisfação profissional, implica em alto risco de acidentes, no absenteísmo, na inconstância no emprego e inevitavelmente, culmina repercutindo na estrutura familiar. Quanto à instituição afeta na qualidade do seu produto, na redução do lucro, e na deterioração  da sua imagem institucional.

A realidade que permeia as relações de trabalho mostra-se altamente complexa, a exigir soluções criativas, assentadas em alguns princípios e valores essenciais à transformação do que está posto; citamos a título de exemplo, o direito universalizado à atenção, a promoção e a proteção àqueles que trabalham, independente da forma singular de inserção no processo produtivo; assim como direito à formação e, à informação adequada e necessária, a cada usuário, sob princípios da solidariedade efetiva e da ética, constantemente a nortear as decisões e, as ações políticas e administrativas. Não nos podemos esquecer que as condições de saúde dos trabalhadores do ensino dependem das condições em que eles realizam seu trabalho, e, o problema que emerge, diante do que está posto, configura-se na prisão, num cotidiano que se repete em sensações agonizantes, desestimulando planos e expectativas futuras, ou seja, engessando possibilidades. O que nos inquieta é perceber esta espécie de desamparo, a reportar-nos às palavras de Alevato(1999)[1], seria propositalmente esta situação conjetural para construir uma reserva de mercado com um exército de loucos?

Por outro lado, constatamos que as patologias psíquicas e mentais (depressão, alcoolismo, envelhecimento precoce, Burnout, etc) já são reconhecidas pela Legislação Previdenciária, como doenças do trabalho[2]. Consoante o artigo 340, do Decreto 3048,  explicita que por meio dos segmentos: estabelecimentos de ensino, sindicatos, organizações de classe, [...] serão promovidas regularmente instrução e formação com vistas a incrementar costumes e atitudes prevencionistas [...].(1999,  p.43).

Paulatinamente vemos, que a fragilidade emocional provocada pela falta dos suportes afetivo pessoal, profissional e social traz grande sofrimento, não ficando restrito somente a um aspecto. Então, o estresse vem se tornando presença constante ao longo da trajetória dos trabalhadores do ensino. Nesse sentido nos ensina Pelletier[3] (1997), que a capacidade de enfrentamento do estresse, não se trata de mera questão de controle ou atitude pessoal, todavia, a possibilidade de reflexo acerca da intensidade dos vínculos sociais estabelecidos, ou não; vínculos estes que atuam como amortecedores dos impactos a que o trabalhador do ensino está sujeito em seu cotidiano.

A realidade social e econômica sob a qual cristalizou-se o modelo de relações de trabalho educativos, que se chocam e ocasionam a doença, fez com que os profissionais da educação se vejam encurralados diante do desafio de construir uma escola jovem e, ao mesmo tempo, vencer limites impostos pela organização do trabalho. Neste segmento produtivo, como se observa, a preocupação com a saúde dos professores ainda não se fez presente. São raros os estudos técnicos e acadêmicos sobre a saúde do trabalhador da educação e não temos visto concreta iniciativa, como se os professores não fossem atingidos pelas doenças do trabalho.

Como formas de prevenção da Síndrome de Burnout, encontramos propostas para que os trabalhadores do ensino evitem a monotonia, e para isso, aumentem a variedade no cotidiano, prevenindo o excesso de horas dedicadas tão somente ao trabalho. Também alertam sobre a importância do investimento na capacitação profissional e pessoal dos trabalhadores, conjugada à relevância da melhoria na qualidade das relações sociais.

Cremos que, se houver vontade política dos gestores do serviço público, percebida por suas ações efetivas direcionadas ao respeito, à consideração pelo trabalhador do ensino, muito se conseguirá fazer, a favor da manutenção da integridade física e moral do trabalhador. Contudo espera-se também, que se ações forem noticiadas neste sentido, que sejam de fato e, de direito, para atender a todos os trabalhadores, sem distinção, discriminação, ou, exclusão; porque diante de todas as dificuldades pelas quais têm vivenciado os trabalhadores de ensino em seu percurso, mais uma vez, se defrontarem com critérios que privilegiem a um número reduzido de ‘escolhidos’, creio indubitavelmente, que a classe trabalhadora de ensino, fará jus à uma comenda de heróis resistentes da contemporaneidade.

Outrossim, cremos que urge o debruçar de um olhar mais longe, com maior acuidade, qual Apoena[4], para que o gestor do serviço público, veja o sofrimento do trabalhador do ensino, possível de ser percebido pela fisionomia, no seu andar, no franzimento por entre os olhos, no semblante representativo da sobrecarga; visível também por meio das rugas cada vez mais precoces; na pobreza das relações interpessoais, rumo ao isolamento, configurado pelo sofrimento, físico, psíquico e moral; e, o não menos significativo e, sintomático da Síndrome estudada, qual seja, o olhar da desistência . . .

Necessitamos ressaltar que o ato de trabalhar por si só, não implica mal a alguém; contudo, o excesso de trabalho, as condições organizacionais injustas, imorais e, as perniciosas relações no trabalho é que impõem sofrimento. O cansaço físico ou mental pode fazer parte, do cotidiano de um trabalho, entretanto, não sob características comprometedoras da saúde do trabalhador do ensino, ao ponto que se tornem crônicos. O que tem recebido o trabalhador de ensino, quando vende sua força de trabalho para suprir suas necessidades materiais e afetivas? Seria o saldo desse fato social, determinante na implantação da Síndrome e, sua manutenção na carreira que abraçou?

No que diz respeito à nossa preocupação ao iniciarmos esta investigação, ou seja, conhecer as causa da Síndrome de Burnout segundo os trabalhadores de Ensino da Escola Jovem de Cáceres, em quem foram detectados os indícios de acometimento por esta síndrome, podemos consignar que a totalidade dos sujeitos investigados imputou a causa principal, à parca remuneração percebida mensalmente pelos trabalhadores, a título de salário. Todavia, outras foram apontadas, com não menos ênfase tais como: insatisfação profissional; insatisfação pessoal; desvalorização da profissão; não-reconhecimento da profissão pelo valor social que tem; falta de incentivo por parte do governo; não sentir prazer na profissão; não usufruir momentos de lazer; porque não conseguem se desligar das preocupações com as dívidas contraídas, face ao desequilíbrio entre o que recebem e, o que despendem para o suprimento das necessidades básicas. Estas causas apontadas reforçam nosso entendimento sobre a urgência dos órgãos competentes viabilizarem ações preventivas e profiláticas no sentido de garantir ao trabalhador de ensino a qualidade de vida no trabalho tão propagada na mídia nos últimos tempos e, que vem se transformando em slogan pra muitos galgarem o ápice político-partidário, sem que de fato e de direito tenhamos percebido sua prática nas relações de trabalho do serviço público.

Entendemos que o trabalhador do ensino precisa, realmente, de reconhecimento sobre valor de sua contribuição social, para que seja liberto da carga mental peculiar a esse trabalho que tem provocado sofrimento para quem o realiza; pois, ainda que se esgote tentando valorizar a si, ao outro, e, ao trabalho, quando ele percebe que a sociedade não reconhece a utilidade social do produto de seu trabalho, ocorre a desistência simbólica e, então entra em Burnout.  Pensamentos como o de Antunes (2002, p.175) ao afirmar que uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho, nos inclina para objeto de investigações futuras acerca do sentido da vida para os trabalhadores em Burnout; teria uma relação de causa e conseqüência? O sentido da vida e, o sentido do trabalho poderiam ser variáveis interdependentes, ou, mediadoras na produção do sofrimento psíquico daqueles acometidos pela Síndrome de Burnout?

Acreditamos que este objeto de estudo não se esgotou com a finalização desta investigação ora relatada. A nossa tomada de consciência, diante da complexidade do ser e do saber, nos aponta para um leque de discussões que doravante se descortinam, pelas veredas de nosso percurso que, prossegue ... 

REFERÊNCIAS:

ALEVATO, Hilda Mª Rodrigues (1999). Humanos, ainda que professores. Tese de doutorado em Educação – Faculdade de Educação, centro de estudos sociais aplicados. Universidade Federal Fluminense-UFF. Niterói.

ALEVATO, Hilda Mª Rodrigues (1999). Trabalho e neurose: enfrentando a loucura de um ambiente em crise. Rio de Janeiro: Quartet.

Decreto Federal n. 3048, de 6 de maio de 1999, anexo 1, parágrafo VIII

PELLETIER, K.(1997). Entre a mente e o corpo: estresse, emoções e saúde. In GOLEMAN, D. & GURIN, J. (orgs.) Equilíbrio mente-corpo: como usar sua mente para uma saúde melhor. 2ª ed., Rio de  Janeiro: Campus, 1997: 15-31

Caixa de ferramentas da Escola Jovem, 2001, p.9

[1] Dra. Hilda Alevato, Psicanalista/ Dra. em Educação e Professora da Universidade Federal Fluminense-UFF.

[2] Regulamento da Previdência Social: Decreto Federal n. 3048, de 6 de maio de 1999, anexo 1, parágrafo VIII. O decreto adota a expressão consagrada pela CID X (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicação da Organização Mundial de Saúde, editada no Brasil pela EDUSP).       

[3] PELLETIER, K. Entre a mente e o corpo: estresse, emoções e saúde. In GOLEMAN, D. & GURIN, J. (orgs.) Equilíbrio mente-corpo: como usar sua mente para uma saúde melhor. 2ª ed., Rio de  Janeiro: Campus, 1997: 15-31

[4] in ‘Caixa de ferramentas’ da Escola Jovem, 2001, p.9

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